Informações

Não é só para inglês ver!

Hélcio Lanzoni

Assumir a importância do domínio efetivo da língua inglesa sem viés ideológico é fundamental para que o Brasil assuma de vez os desafios linguísticos inerentes a nações que pretendem ampliar sua participação mundial.

Atuação global?

Blog TESE Prime

O Brasil está sempre diante de oportunidades de desenvolvimento que demandam a superação de desafios óbvios como infraestrutura deficiente e burocracia kafkaniana, mas atuar globalmente demanda também mudanças de atitude. Deixando de lado pendores ideológicos, para se tornar um world player faz-se premente que o país assuma de vez os desafios linguísticos inerentes a nações que pretendem ampliar sua participação mundial.

A língua de interação

O inglês é inquestionavelmente a língua franca da comunicação internacional e continuará a sê-lo por muito tempo. O Conselho Britânico estima que existam no mundo cerca de um bilhão de pessoas estudando inglês e que o número de falantes não nativos já superou o de nativos. Contudo, a importância de um idioma não pode ser mensurada apenas pelo número de pessoas que o utilizam, mas pelas finalidades para as quais ele é utilizado. O inglês é a principal língua da ciência, da informação, do entretenimento e dos negócios, e é através do inglês que executivos mexicanos, japoneses e gregos comunicam-se entre si e fecham negócios que contribuem para o crescimento de seus países.

As portas se abrem

Nosso vizinho Chile implementou o programa “English Opens Doors” com a meta de dar suporte à vocação exportadora do país. A China já acordou para a realidade linguística mundial e diversos canais da mídia eletrônica chinesa têm noticiado (em inglês) a velocidade com que a aprendizagem da língua inglesa tem se espalhado pelo país. Na Coréia do Sul, a mais antiga e prestigiosa universidade do país, a universidade de Yonsei, passou a oferecer cursos ministrados totalmente em inglês, para evitar a fuga de seus melhores cérebros para o exterior. O mesmo tem ocorrido em universidades de outros países asiáticos, como Cingapura, Japão e China. Até a tradicionalmente anglofóbica França já aderiu ao pragmatismo ao admitir a maior amplitude do inglês.

As Universidades na Vanguarda

No Brasil, alguns setores já despertaram há algum tempo para essa realidade e um bom exemplo vem do meio acadêmico. Há um grande movimento em prol da internacionalização de nossas universidades e alguns cursos já vêm ministrando suas aulas totalmente em inglês, mesmo que ainda não tenham alunos estrangeiros na sala de aula. Na pós-graduação, a comprovação do nível de proficiência em inglês vem sendo requerida como pré-requisito para o ingresso nos cursos, ao invés de avaliar os alunos depois que eles já estão assistindo às aulas.

Sobrevivência

Um ponto crucial diz respeito ao nível dos falantes brasileiros de inglês, uma vez que um grande percentual deles não vai além do nível de ‘sobrevivência’, mesmo em setores cruciais. De acordo com levantamento feito pela Aeronáutica, menos de 3% dos controladores de tráfego aéreo do país têm o conhecimento mínimo em inglês requerido pela OACI (Organização de Aviação Civil Internacional). A APEX (Agência de Promoção de Exportações e Investimentos) concluiu em relatório que a maioria das empresas brasileiras ainda não possui uma cultura de exportação, sendo que “a primeira dificuldade é o domínio de línguas estrangeiras, como inglês e espanhol, o que afeta o entendimento e a qualidade do atendimento de solicitações vindas de fora, bem como a elaboração de material promocional e a localização de produtos”.

Sem ‘jeitinho’

No conto “O homem que sabia javanês”, de Lima Barreto, o personagem Castelo galgou diversos degraus na escala social graças ao seu suposto domínio de uma língua estrangeira. Seu oportunismo circunstancial foi suficiente para mantê-lo distante de eventuais comprovações de suas reais habilidades – no caso, inexistentes. Assim como neste conto ambientado no início do século passado, muitos profissionais hoje em dia procuram encobrir suas limitações linguísticas escrevendo “inglês fluente” em seus currículos e torcendo para não ser avaliados.  Mas hoje não há espaço para o ‘mais-ou-menos’ e para o ‘eu me viro’. Assim, assumir a importância do domínio efetivo da língua inglesa sem viés ideológico é fundamental para que a barreira da língua não contribua para exacerbar preconceitos linguísticos e levar um lado a não enxergar no outro um interlocutor que valha a pena ser ouvido.

*Hélcio Lanzoni é doutor em Linguística Aplicada pelo Instituto de Estudos da Linguagem (IEL – Unicamp). Atuou como professor de graduação e pós-graduação e é Diretor de Exames da TESE Prime – Avaliação em Idiomas.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *